Gâmbito do Peão

Gâmbito é uma palavra utilizada no Xadrez para designar um sacrifício de uma peça em troca de vantagem no tabuleiro.  Normalmente é uma armadilha porque quando o adversário toma a peça é quando ele perde vantagem. Então, normalmente o Gâmbito ou é disfarçado ou muito óbvio. Ambas as formas tentam tomar o adversário desprevenido e forçá-lo a tomar uma decisão “a quente”.

O peão é a peça menos valiosa no tabuleiro (em termos de pontos) e com movimentação limitada, mas são muito uteis para atrapalhar a movimentação das outras peças.  Por outro lado, os peões podem ser promovidos. A Promoção acontece quando um peão chega na extremidade do tabuleiro  oposta àquele em que começou a partida. Nesse caso o peão é substituído por uma outra peça à escolha do jogador. Normalmente a Rainha – a peça mais poderosa do tabuleiro, mas qualquer uma é possível. É por isso que o jogador faz alguns gâmbitos no inicio da partida: para abrir caminho à promoção do máximo de peões. Por causa da promoção,  o adversário normalmente morde a isca e toma o peão sempre que tem oportunidade para evitar ficar em desvantagem mais perto do fim do jogo. Essa é armadinha, ele vai ficar mais vulnerável quando interessa: agora!

“Peão” é também o nome dado às pessoas que trabalham no chão de fábrica. Talvez por analogia  com o peão do Xadrez, já que ambos gozam de certas propriedades semelhantes, como o valor a movimentação o “atrapalhamento” que causam e a “promoção”.

Ao contrário do jogador de xadrez que valoriza seus peões, o dono de fábrica  normalmente não. À semelhança do jogador de Xadrez ambos acham que o peão é dispensável; que não há vantagem em tê-lo por perto e muitas vezes é vantajoso livrar-se dele. O Gâmbito do Peão acaba sendo uma estratégia de donos de fábrica. O que eles esquecem é que o jogador de Xadrez oferece o gâmbito em troca da possibilidade de promover outros peões. Normalmente o dono da fábrica não sabe o que significa “promover”, como um jogador iniciante.

Mas ao contrário dos peões de Xadrez que são peças de madeira sem alma, o peão de fábrica é um ser humano.  Certo que talvez um ser humano com pouca educação e oportunidades, mas normalmente uma pessoa honesta e de caráter que não se importa de sacrificar a sua força física e a sua força emocional e intelectual para o bem da empresa, em troca de salário fixo e constante.

Em épocas de crise (ou pseudo-crise) as fábricas despedem os peões que contrataram a mais anos atrás quando as coisas “iam bem”. A mídia interpreta isso como “corte de custos” e automaticamente como “crise na empresa”. Quando muitas empresas fazem o mesmo a mídia fala em “crise do mercado”, cega ao fato do problema ser da empresa que faz isso, nunca do mercado. Isto nada mais é do que o Gâmbito do Peão sendo executado em massa.

Agora, você que trabalha com desenvolvimento de software em uma empresa que se auto-denomina “fábrica de software” deve estar pensando se você é um peão ou se seus superiores teriam escrúpulos em oferecê-lo em gâmbito.  Está?

Se está, então deixe-me lhe dizer o que já é sabido há muito tempo:  sem peões não há jogo.
Por muito descartáveis que sejam não é possivel ter um jogo sem eles. Durante a partida, você pode até sacrificar alguns, mas se você deixar alguns até ao fim, normalmente acontece alguma promoção que lhe dá a vitória do jogo.

Donos de fábrica inteligentes tentam promover seus peões da mesma forma que o jogador de Xadrez. Isso envolve treinamento e custo, mas principalmente envolve respeito e profissionalismo.

Então, não é porque você trabalha em uma “fábrica de software” que automaticamente você está no páreo para o sacrifício.

Se você não quer sacrificado seja aquele peão que tem mais chance de ser promovido. Mas  se os donos da fábrica não tiverem uma política de promoção (ou pelo menos reconhecimento), então é hora de procurar outro emprego. É o processo de seleção natural. Quem sabe fazer software vai trabalhar para empresas que respeitam esse talento. Quem não respeita, acaba com meia duzia de autômatos que escrevem código (que é algo diferente de desenvolver software). A longo prazo essas empresas morrem.

Essas empreas que estão voltadas a morrer são simples de identificar. Normalmente têm muita gente  pouco qualificada programando (quer dizer, escrevendo código) e essas pessoas são encaradas como dispensáveis. Aliás, alguns tipos de contratação já meio que signfiicam isso (aka estagiário).  Têm sempre algum tipo de hierarquia como no exército. Isto é necessário quando a força ativa do grupo precisa cumprir ordens sem pensar, ou quando os superiores acham que a força ativa não pensa ou não pode ter esse direito. Além disso a hierarquia é essencial para ordenar o sacrifício e ter certeza que será cumprido. Em uma real empresa de software não há hierarquia, ha responsabilidades e colaboração.  Finalmente, empresas voltadas a definhar não fazem nenhum investimento na educação ou re-educação da força ativa (já que eles não pensam, como iriam aprender ?). Quando qualquer novidade é encarada com desdem e até como sacrilégio é porque a empresa não preza pela capacitação de seus membros. Esse é o sinal para você dar o fora. Você aprendeu a ser profissional em um nível superior ao que a empresa onde trabalha admite. Se você não for embora por sua conta, acabará sendo enviado para fora mais tarde já que a sua necessidade de evolução e a mentalidade mentecapta da empresa nunca poderão funcionar juntas. Encare isso como um processo natural em que você seleciona parceiros mais aptos e não como um castigo.

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