Ciência On the SPOT

Lá por volta de 1998, estava eu no meu segundo ano de Engenharia Física na FCUL (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e estava entusiasmado com a cadeira de programação. O curso de Engenharia Física é destinado a forma pessoa com capacidade para entender um pouco de todas as áreas relacionadas à física de forma a poder liderar projetos nessa área. Hoje em dia é impossível fazer física sem usar computadores e isso implica em saber programar. Já tinha tido uma introdução à programação no primeiro ano com Fortran cujo professor era um físico. O foco era o que a programação poderia fazer por nós em termos de calculo científico. Fortran é ótimo para trabalhar com matrizes e por isso é tão popular em ciências, sobretudo entre os físicos (sobre tudo o que se formaram antes de 1980).

Mas a nova cadeira de programação ia ser dada por um professor do departamento de informática. As pessoas do departamento de informática estão mais antenadas no futuro da informática que os físicos e por essa razão o professor queria nos ensinar Java. Em 1998 em Portugal a internet era uma novidade e os applets java dominavam todas as páginas. Alguém de entre os colegas decidiu que Java não era uma linguagem boa para ciências. já que servia apenas para fazer applets. Então, “a pedidos” o professor do departamento de informática foi motivado pelo diretor do curso a não ensinar Java. Sendo que Java estava fora das opções, o professor do departamento de informática escolheu ensinar C++. Do mal o menos – ao menos iríamos aprender orientação a objetos.

Esta decisão do diretor do curso influenciado por alguns colegas (não sei quantos – nunca soube quem foram , ou sequer se existira) sempre me perturbou e fiquei de olho se realmente Java estava fora do meio científico. Uma das coisas que o Java garante é a repitabilidade dos cálculos , coisa que o C++ não garante. Seria de pensar que isso seria importante no campo da ciência, mas aparentemente quem disse nem sabe o que raios é Java, ou acham que é uma linguagem de programação. Java é uma plataforma de desenvolvimento , para quem não sabe. E não apenas de desenvolvimento de software.

Hoje, dez anos depois a Sun conseguiu vingar a idéia original do Java que foi criado para correr dentro de hardware. É claro que começou pelo applet e isso trouxe grande visão. Abocanhou o server-side e depois os celulares. Hoje esforça-se para entrar no desktop usando os applets como porta de entrada, mais um vez. Mas Java é usando em níveis ainda mais baixos. Cartões com chips (JavaCard) e outros aparelhos. O mais assombroso é o Sun SPOT. Esta idéia permite que qualquer um possa criar um robot em meia hora. Claro que não será nenhum R2D2 mas também não será programado em C++ ( ou C, ou Fortran , … )

As aplicações em recolha de dados , sensores e atuadores são imensas. Estas coisas são realmente chatas e demoradas com as tecnologias comuns. Será mesmo que um engenheiro em fisica do seculo XXI tem mesmo que saber programar microcontroladores 8085 em assembler? Não me parece. Os custos disso são muito mais altos que programar , por exemplo, um Sun SPOT. Além de que no campo da ciência o dinheiro é sempre pouco e é preciso apresentar a coisa funcionando rapidamente. O facto do SPOT ser open source tanto no software como no hardware pdoe ajudar a criar inovação muito mais depressa. Os jovens universitários tem sempre sede de inovar e essa sede não é satisfeita nas universidades de hoje em dia – normalmente por problemas de custo.

É claro que alguém tem que saber assembler e microcontroladores e microeletronica, mas que tal deixar isso para engenheiros eletrônicos/elétricos? Para quem é suposto liderar equipes cientificas deste século o pensamento tem que estar um pouco acima de bits e bytes e mais perto daquilo que a ciencia de hoje (tanto a física, como a informática, e outras) pode fazer para aliviar o peso do dia-a-dia do cidadão comum por esse mundo afora sem que isso pese no seu orçamento.

Deixo-vos a apresentação do Sun SPOT que além de mostrar o que pode ser feito com ele , mostra como a ciência sim pode usar Java a seu proveito e mostra que tanto os colegas como o diretor do meu curso 10 anos atrás , estavam enganados. Mais do que isso, não tinham visão. Uma desilusão que talvez me tenha feito trabalhar como desenvolvedor Java e não como engenheiro físico (embora seja um de coração).

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