Paradoxo do Valor

Quando você compra alguma coisa, o que o faz decidir entre a coisa A e a coisa B se elas têm o mesmo preço?

A resposta a esta pergunta não é clara a princípio porque você pode responder coisas como “marca”, por exemplo. Mas não é isso que o faz escolher. É o valor do produto.

Este conceito de valor é muito diferente daquele a que normalmente chamamos valor. Comumente, valor é entendido como sinônimo de honestidade (valores morais) ou de dinheiro (valor monetário, preço). Não são a essas acepções que me refiro, mas a um conceito mais abstrato. Neste sentido, valor é algo intangível embutido em alguma coisa que lhe aumenta o préstimo, o mérito ou a utilidade. Às vezes nem sabemos bem o que aumenta, mas sabemos que A tem mais valor que B. Se isso lhe causa confusão pense ao contrário. O que significa um bem “desvalorizar”? Perder valor, certo? (não necessariamente diminuir o preço ou o custo)

A incapacidade de medir o valor o torna uma forma de ágio. É muito comum no mercado financeiro (em que dinheiro é dinheiro e o que se comercializa são valores não-monetários) estimar incorretamente o valor do investimento. É fácil fazer alguém acreditar que algo tem um valor maior apenas com conversa, já que é impossível medir o valor de algo as estimativas sempre serão subjetivas. Manipulando essa subjetividade é possível incutir mais valor ( ou menos) em algo.

Sabendo que as pessoas compram valor e não apenas objetos, o objetivo deveria ser incluir o máximo de valor nos objetos que vendemos. A tarefa é portanto encontrar e embutir valor. Mas não apenas isso, cobrar pelo valor incluído. O problema é que como o valor não é mensurável é muito difícil estimar preço em cima de valor. A escala é relativa. O objeto por si próprio já tem um valor, por exemplo, um garfo, independentemente da marca, material de que é feito, etc., tem um valor inerente durante uma refeição. Adicionar mais valores ao objeto permite-nos cobrar mais pelo objeto.

Às vezes incorremos no erro de atribuir valores extremos a objetos simples. Isto é particularmente verdade no mundo das artes. Uma tela branca com um risco vermelho pode ter valor inestimável – não pode ser estimado – dependendo de quem é o autor. Não é por acaso que se inventou a arte abstrata (um pleonasmo). Outro exemplo seria o dos perfumes, em que o valor produto é muito maior que o valor de um volume de água com cheiro.

Bem, tudo isto para chegar no valor de um software. Qual é o valor inerente a um software ? Ou seja, qual valor ele tem per se ?

A resposta a isto é complexa e simples: nenhum. Ou seja, todo o software começa com nenhum valor. Qualquer coisa que for incluída nele irá alterar isso. Para mais ou para menos. É por isso que podemos ter um software “sem nenhuma funcionalidade” e mesmo assim ter um software com valor. Afinal se obras de arte não realizam nada mas têm valor, porque softwares não podem?

Bom, e o que dá valor a um software? Tudo o que o tornar mais utilizável. Quando mais o usuário utiliza o software porque quer, mais valor ele tem. Existem várias formas de incluir valor no software. Desde as comuns como telas bonitas e navegabilidade simples às menos comuns como código limpo, de fácil manutenção e extensão. Veja só, o conceito do software em que este blog se apoia não é nenhuma peça de software top de linha… muito longe um algoritmo de tratamento de imagem, de compressão ou criptografia, mas o valor de um blog nos dias de hoje é … bem… inestimável.

Quem usa um software o faz porque ele tem valor. E a pessoa escolhe entre as opções (Linux/Windows , MS Office/OpenOffice , IE/Firefox , etc..) por causa da diferença dos valores. Que valores você quer no seu software?

Genuinidade? Você que ele seja genuíno, ou seja, igual ao que o programador criou ? Ou você aceita um que foi modificado para funcionar em circunstâncias diferentes?

Honesto? Você quer um sistema que o engana, que o rouba? E que tal um que engane e roube os outros? Infelizmente tem muito disso por ai.

Bonito? Você gosta de softwares com aparência agradável ou prefere os tempos das telas verdes? Mas você está realmente disposto a pagar pela beleza?

Pró-ativo? Que tal um software que controla todos os passos e resolve o que está errado e só o avisa quando não sabe o que fazer? Um sistema que aprender. Será que você quer um sistema que sabe demais?

Embora o conceito de valor seja intelegível o suficiente para ser discutido, já o assunto de como aumentar (ou diminuir) o valor de alguma coisa, e particularmente de um software, não é nada fácil. Por outro lado, nem sempre o valor do software está no código (pelo menos não está todo no código). Porque um software é antes de mais nada um serviço, assim o seu valor é primeiramente pessoal e só depois técnico. Então muito do valor está em lidar com as pessoas certas. Imagine comprar um software que é muito-muito-muito bom, mas que tem que receber chamadas 5 vezes por dia da empresa que lhe o vendeu. Isso tem valor? Com certeza não. Talvez um software mais modesto mas que não implique em pessoas enchendo a sua paciência seja mais valorizado.

Esse é o paradoxo do valor: quando é demais, se torna de menos. O que é bom pode virar ruim apenas mudando uma vírgula. A velha máxima “menos é mais” parece se aplicar bem aqui. Mas, você quer algo com o menor valor possível? Você quer comprar uma telefone apenas para telefonar? Um carro apenas para se deslocar? Uma cama apenas para dormir? Uma casa apenas para morar? Você aceitaria isso? Então porque você aceita escrever um software apenas para funcionar?

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Um pensamento em “Paradoxo do Valor”

  1. Sergio muito bom o post, com grande Valor!hehe..

    Isso faz pensar na importância que algumas empresas e/ou desenvolvedores dão a mais ou a menos, em software de “marca” de empresa grandes.

    Tenho a seguinte opinião, desenvolver software está mais para um trabalho artístico do que para linha de desenvolvimento fechado.

    E como todo trabalho artístico, a avaliação não pode ser de valores fechados e sim apreciados da concepção original até a finalização.

    Paulo Fagundes – Taubaté – SP

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