Paradigma

O que é um Paradigma

A definição de paradigma no dicionário é:

do Lat. paradigma < Gr. parádeigma, modelo
s. m.,
	modelo;
	norma;
	exemplo;
	padrão;
	tipo de conjugação ou declinação gramatical.
http://www.priberam.pt

Entretanto, note que o vocábulo é usado normalmente como sinônimo de um meta-modelo ou meta-norma, ou seja, como uma diretiva para a construção de outros modelos e normas. A palavra paradigma possui várias utilizações[1] relacionadas à ciência, à filosofia e até à religião, mas o seu principal uso dá-se no ramo da epistemologia[2]: a teoria que estuda problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento (sim, são coisas diferentes).

Paradigmas são ao mesmo tempo o bem e o mal do mundo. O bem advém da sucessiva alteração de paradigmas, ou seja, a vigência de um paradigma é limitada no tempo e no espaço. Assim, um paradigma aceito em uma cultura em determinado período, pode não ser aceito em outro período pela mesma cultura, ou no mesmo período por culturas diferentes. Isso cria diversidade: o que é bom. Por outro lado, os paradigmas podem ser encarados como o mal do mundo porque a falha das pessoas em reconhecerem que o seu pensamento é submetido a um (ou mais) paradigma vigente as tornam intransigentes, ignorantes e, em última análise, estúpidas.

A epistemologia é a teoria que pretende discernir o que é submissão a paradigmas (crenças) daquilo que é conhecimento (saber imparcial, reaplicável e reaproveitável). Observe-se que conhecimento não se limita a conhecimento científico, este é apenas um dos vários tipos possíveis. O conhecimento científico é aquele obtido através de um certo método e que goza de propriedades especiais relativamente a outros tipos.

De igual forma, a epistemologia pretende analisar como os paradigmas são criados, alterados e abandonados. No fundo, discernir o ciclo de vida dos paradigmas e suas interações é uma das preocupações da epistemologia. Para entendermos bem o valor desta teoria temos que entender que ferramentas ela utiliza. A primeira delas é a História, visto que a evolução do pensamento, crença e conhecimento ao longo dos tempos denota a sucessão dos paradigmas, isto é, como eles se suplantaram em seqüência até hoje. Outra ferramenta é a Lógica, que distingue afirmações falaciosas de afirmações válidas (não necessariamente verdadeiras, mas pelo menos, não falsas à partida). O trabalho dela é filtrar o que se diz e pensa, de forma a extrair as impurezas resultantes de paradigmas vigentes na atualidade. A Matemática pode ser uma ferramenta utilizada em casos mais específicos. Por exemplo, em epistemologia da ciência, a linguagem matemática é mais eficiente em manter coerência lógica ao longo do tempo. Contudo, também ela é sujeita a paradigmas e, portanto, não é completamente imparcial. A história mostra que assim é: antigamente certos números eram preferidos em detrimento de outros para certos usos. Isto denota uma restrição imposta pela sociedade e cultura (o paradigma) e não uma verdadeira restrição do conhecimento matemático em si.

Paralaxe dos Paradigmas

Durante a vida de um Paradigma acontece que um pequeno conjunto de pessoas se torna consciente do um novo paradigma. O seu trabalho e esforço tornam o novo paradigma conhecido de outras. Assim, à medida que o conhecimento do novo paradigma se alastra, o uso do velho diminui, até ao ponto em que todas as pessoas utilizam o novo paradigma e velho é historia.

É esse período de transição onde um novo paradigma aparece, convive com o anterior e finalmente se torna o paradigma padrão vou chamar Paralaxe dos Paradigmas (à falta de melhor termo). Paralaxe é um termo usado em astronomia para referir o movimento aparente de uma estrela quando observada de um planeta[4]. Aqui se refere à dinâmica que leva um paradigma a ser abandonado e outro a ser aceite.

Existem opiniões divergentes sobre como um paradigma aparece e outro desaparece. O que interessa aqui é que isso acontece: um aparece e outro desaparece. Essa alteração de paradigma convencionou-se chamar “Quebra de Paradigma” embora a passagem de um para o outro não seja abrupta, mas contínua. Ou seja, um novo paradigma não é aceite por todas as pessoas da noite para o dia. É um processo que demora tempo.

Em bom entender: os paradigmas não se transformam em outros, eles são realmente órfãos sem nenhum parentesco entre si. O que ocorre é uma convivência durante um certo período de tempo. É durante esta sobreposição que acontece a paralaxe.

Estudar este fenômeno, em si próprio, é interessante já que está constantemente acontecendo em vários níveis da vida do ser humano. Há bem pouco tempo atrás (séculos são pouco tempo em epistemologia) seguiam-se paradigmas como: as mulheres não deveriam trabalhar por um salário, o homosexualismo era uma doença psicológica ou o meio-ambiente era mero palco passivo da nossa existência. Hoje se aceita que as mulheres trabalhem profissionalmente, o homosexualismo é visto como uma forma de exercício da liberdade individual e o meio-ambiente é reconhecido como elemento simbiótico e necessário à existência da humanidade. Se olharmos para os ramos das ciências, ou os das várias religiões, teremos ainda mais exemplos.

O ser humano é um animal cuja maior capacidade física é possuir capacidade mental. Ele se alimenta de conhecimento com o mesmo vigor que se alimentar de comida. Sustentar a mente é tão, ou mais, importante que sustentar o corpo, e isso dá ao ser humano capacidades e responsabilidades inexistentes em outros animais. Mas tal como a comida pode ser envenenada e fazê-lo definhar lentamente, também o saber acumulado pode ser tingido de imperfeições que definham a sua mente.

É o papel dos paradigmas manterem a humanidade em evolução pela constante alteração daquilo em que elas crêem. Paradigmas não são conjuntos de conhecimento “puro” e sim conjuntos de crenças, submetidas ao escrutínio da sociedade, da sua cultura, de suas mágoas, desejos e esperanças. A sucessão dos paradigmas é uma medida da maturidade da civilização humana como um todo, e isso não pode ser ignorado.

Agentes da Paralaxe

A paralaxe dos paradigmas não é um mecanismo provido pelo universo e sim pela aleatoriedade, pela dispersão estatística do mesmo padrão – afinal é apenas uma ilusão. É da natureza de alguns documentarem o paradigma vigente, de outros, de o desafiar; e há ainda aqueles cujo feitio é o de se apegarem teimosamente ao paradigma passado. Felizmente, existem alguns poucos cuja natureza é a de propor novos paradigmas. Nem todos os paradigmas têm relevo suficiente para se tornarem aceitos universalmente por um longo período de tempo (alguns séculos). É interessante observar que para cada uma destas posturas assumidas pelo ser humano frente às mudança de paradigma nascem ofícios relacionados. A ciência, por exemplo, é o ofício de quem quer propor novos paradigmas para entender o universo em que vivemos. Entretanto, ela é boicotada por quem, dentro dela, não vê além do paradigma onde a ciência se inclui: a crença que podemos realmente ter a certeza de entendemos o universo, isto é, a crença que ele é intelegível e que temos ferramentas – ou as podemos construir – para alcançar essa finalidade.

Velhos do Restelo[4], que sempre são contra qualquer novidade, são a força que nos mantém no paradigma anterior, como bolas de chumbo nos pés de prisioneiros, amarras que seguram o barco no cais. Por outro lado, estes conservadores mantém acesos faróis que indicam portos seguros, para onde podemos ir sempre que algo der errado e nos perdermos. E essa necessidade de voltar é muito grande pois é muito mais fácil permanecer em porto já conhecido que procurar o desconhecido. Contudo, existem aqueles que fazem isso.

Desbravar novos caminhos, terrenos ou não, é a missão dos pioneiros. Aqueles que, na vanguarda, aceleram o descobrimento e mostram as maravilhas de novos conhecimentos, novos lugares, novas realidades àqueles que vêm atrás.

Escribas cujo trabalho é documentar tudo o que acontece: opiniões, fatos, conceitos, escolhas, sentimentos. Historiadores fazem este trabalho com gosto. Arqueólogos põem a mão na massa procurando provas do que aconteceu no passado. Visionários mostram os caminhos possíveis a partir daqui. Filósofos interrogam-se sobre se não está faltando algo nestas redações. Eles vivem a mudança e se alimentam dela.

Finalmente existem os Transportados. Aqueles que, impávidos e serenos, não interferem em nada com o ciclo de vida dos paradigmas. Seguem aquele que a maioria seguir, ou aquele que lhes for ordenado seguir. Estes são os corruptíveis que não acreditam em nada, nem sequer no que têm ao contrário dos conservadores. Tanto lhes faz o resultado final e portanto, tentam aproveitar a viagem. O papel dos transportados na paralaxe dos paradigmas é serem um volume. O volume que os Pioneiro têm que guiar para que o paradigma mude. O volume que os Conservadores têm que conter para que ele não mude. O volume, cujas reações os escribas têm que documentar.

O agentes da paralaxe não estão sozinhos e a sua missão não é vazia de perigos. Conservadores podem muito bem atrasar a sucessão natural dos paradigmas (lembre-se da “Idade da Trevas”). Desbravadores podem avançar demasiado depressa ou na direção errada (experiências genéticas irregulares, extermínio étnico e a procura da raça perfeita). Escribas podem confundir os fatos com as opiniões, as escolhas com as circunstâncias. O resultado de tudo isto pode ser devastador. Desta forma, os mesmos agentes da paralaxe dos paradigmas podem ser os agentes da sua destruição. Isso não é errado ou certo, bom ou mau; simplesmente é assim.

Navegando na crista da onda

O papel da epistemologia é ficar de fora do ciclo de sucessão dos paradigmas. Afinal, essa é a única forma de os analisar imparcialmente. Contudo, essa é uma tarefa impossível à partida, já que a epistemologia é conhecimento em si mesmo e portanto submetida a paradigmas. A tarefa da epistemologia é continuamente procurar não cair em um paradigma em particular e a única forma de fazer isso é manter um historial de todos eles. A epistemologia também tem seus escribas, desbravadores e conservadores. Um epistemólogo é simultaneamente todos eles pois é pela constante alteração de perspectiva que ele mantém sua observação imparcial (o mais possível). É atuando dessa forma que ele se dá conta que a paralaxe é uma ilusão. Isto funciona se alguém assume todos os papéis de forma sã, mas é um perigo quando alguém assume um só papel. Isso o transforma de epistemólogo para desbravador, escriba ou conservador apenas.

Navegar na crista da onda da sucessão dos paradigmas, ou seja, permanecer acima do dilema e da dicotomia dos paradigmas; apresenta-se como tarefa de impossível execução para um ser humano, mas alcançável pela humanidade. A especialidade de cada um, o talento e cada um, pode ser colocado ao dispor da epistemologia, para que um dia possamos saber resolver problemas que advém da nossa natural insatisfação com o mundo e com os outros e da inerente paralaxe que existe devida à nossa posição no universo.

Referências

[1] Paradigma
Wikipédia
Editor:
URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradigma
[2] Epistemologia
Wikipédia
Editor:
URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Epistemologia
[3] Paralaxe
Wikipédia
Editor:
URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralaxe
[4] Velho do Restelo
Wikipédia
Editor:
URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Velho_do_Restelo

Licença

Creative Commons License Sérgio Taborda
Este trabalho é licenciado sob a
Licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 3.0 Genérica .
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Um pensamento em “Paradigma”

  1. Sérgio parabéns pelo blog (eu descobri por um link no GUJ)! Ele está me esclarecendo em muitos aspectos no desenvolvimento OO, comecei a estagiar na área, estou trabalhando com JSP + Spring + Struts, usamos aqui diversos patterns. Parabéns mesmo! Seus tópicos são muito úteis tanto para o desenvolvimento de software como o aperfeiçoamento pessoal/profissional.

    Abraço

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